segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO – CAPÍTULO 01




As lágrimas... Tristes lágrimas que lhe faziam arder os olhos. Lindos olhos azuis como o céu. Agora como um céu nublado.
O seu rosto ainda doía só de se lembrar daquelas mãos brutas e cruéis. Mãos que ora lhe acariciavam, ora lhe surravam. E ali jogada na cama sobre as flores desbotadas de um surrado lençol, testemunhas das noites de falta de amor, chorava com mais profundidade tentando fazer com que todo seu ódio saísse pelos olhos.
Marli olhou para o espelho empoeirado da penteadeira e descobriu seu rosto entre os frascos semivazios de perfumes.
Era a terceira vez nesta semana que levava uma surra do seu cônjuge. Dias turbulentos pairavam sobre o destino desta pobre mulher. Engoliu seco. Sentou na cama e se mirou novamente no espelho revendo o seu rosto. Passou a mão nos olhos para secá-los. Esfregou ela as duas mãos no rosto para descaracterizar as marcas dos dedos do seu carrasco e começou a pensa no passado.

Passado. Agora o que tinha era uma casa de apenas dois cômodos: quarto e cozinha e um banheiro adjacente. Na realidade o pequeno banheiro é um espaço tão reduzido que mal dá para se virar dentro dele. Se a gente entrar de frente tem que sair de costa. Se entrar de costas tem que sair de frente.
Era preciso se levantar para preparar o almoço senão corre o risco de levar outra surra quando Nivaldo chegar com seu estômago vazio e aquele hálito de cana azeda. Pensou mais uma vez no hálito de Nivaldo quando lhe forçava um beijo:
­_Que nojo!
Levantou-se agora para valer. Procurou o par de havaianas, pois o piso estava frio para os seus pés suados. Passou a mão pelo vestido para desamarrotá-lo um pouco. Deu mais uma olhada no espelho confirmando o que já desconfiava. O rosto marcado de roxo ainda estava. O roxo da violência ainda persistia em morar na sua linda face arredondada.
Caminho cambaleando até a cozinha, o outro cômodo do pequeno barraco, e começou a preparar o almoço. Depois de afogar o arroz e o feijão, pôs se a descascar os quatro pepinos dentro de um escorredor de macarrão amarelo. De vez em quando engolia seco lembrando-se da surra que levou.
Enquanto descascava o penúltimo pepino, deu-lhe uma louca vontade de trair o esposo como vingança. Queria desforrar. Não tinha força física para retribuir com a mesma moeda. Mas, mesmo surrada, tinha beleza suficiente para chamar a atenção de qualquer homem. Ontem mesmo foi cantada pelo dono da mercearia quando foi comprar um quilo de sal. Não, com o dono da mercearia não queria. Seria apenas uma a mais. Ele a possuiria como qualquer uma. Conhecia a fama dele na cidade. Não valorizava as mulheres.
Foi até o armário e pegou a carteira de cigarros. Precisava fumar. Estava nervosa e não via a hora de cortar o dedo picando os pepinos. Já bastava a dor das pancadas. Acendeu o cigarro e recolocou a carteira sobre a caixa de anticoncepcional. Pensou em Nivaldo que chegaria dai a pouco com sua carroça e com seu azedume no bafo. Certamente entraria pela porta com muita pressa e ficaria em silêncio.
Acertou. Tal como pensara há alguns minutos atrás. Ele entrou pela porta e foi logo sentando na cadeira mais próxima que, como Marli, parecia estar esperando por ele.
O silêncio reinou absoluto no recinto. Quebrado de vez em quando pelo tilintar do alumínio das vasilhas e dos talheres.
Os olhos de Nivaldo acompanhavam de soslaio as carnudas pernas de Marli sustentando o resto daquele corpo espancado pela brutalidade de um homem sem domínio de si.
Nivaldo lembrava-se agora de uma reza que fizeram há dias atrás em sua casa. Leram e falaram coisas bonitas a respeito da família. Como colocar em prática o que foi falado naquela reza? Não, não devia ter surrado Marli mais uma vez naquela semana.
_É que na hora a gente perde o controle. Não pensa. Falou ele para si mesmo em silêncio.
Quando Nivaldo percebeu que o almoço estava pronto tomou a iniciativa. Encheu seu prato, tinha bom apetite, e acomodou-se no mesmo lugar onde apreciara por alguns minutos as pernas carnudas de sua esposa enquanto se arrependia do ato feito.
Marli o olhava no rosto com ódio. As lágrimas não foram suficientes para subtrair todo esse sentimento que faz azedar o estômago. Engolia com certa dificuldade os grãos de arroz cozidos e molhados no caldo de feijão.
_O arroz ficou salgado. Pensou consigo e abafou a própria voz quando, num segundo de distração, ia perguntando qual o julgamento que ele fazia do tempero de seu arroz. Suspirou um ar nicotinado pelo último cigarro que fumou. Não cederia, bateu o pé. Pegou mais duas tainhas de pepino deixando sobrar mesma quantidade para o marido. Pegar as quatro poderia ser um pretexto para iniciar um diálogo. Pegou apenas duas e repicou-as com a lateral do garfo. Engoliu-as pouco a pouco como se estivesse concorrendo com Nivaldo quem terminaria de almoçar por último.
Agora era ela que estava se lembrando da novena da Campanha da Fraternidade em Família. Foi dona Alzira, boa mulher, que a procurou. Acompanhou a novena todos os dias. Quis continuar a participar do Grupo de Reflexão. Foi duas vezes e depois desanimou. Nivaldo não a estimulou. Participou da novena apenas no dia em que rezaram na sua casa. Outras vizinhas, por diversas vezes, a chamava para participar de outras igrejas. Mas ela achava que se voltasse a participar tinha que ser na católica. Tem muito tempo que ela não vai à igreja. Tem missa todos os domingos pela manhã em seu bairro. A última vez que foi teve a impressão que todos ali a olhavam. Até mesmo o jovem padre que certamente não a conhecia ficou olhando para ela durante a missa. Tinha certeza que a maioria das pessoas na igreja sabia das surras que levava do marido. Sentiu-se envergonhada e inferior às outras mulheres.
Nivaldo seguia almoçando e a olhando. Ela agora tenta fingir que não o percebe e fingiu muito bem. Talvez não fosse o ódio que lhe azedava o estômago, não teria conseguido disfarçar. Passou o garfo no fundo do prato para ajuntar os grãos de arroz que ainda estavam lá manchados de caldo de feijão como seu rosto pelo caldo da brutalidade do machismo idiota. Arriscou a olhar para Nivaldo que ao sentir a presença dos olhos dela abaixou a cabeça.
Nivaldo começou a pensar nos carretos que pegou para fazer à tarde, levantou-se. Foi até ao pequeno banheiro, gargarejou morna na boca e saiu do mesmo jeito que entrou deixando sua esposa sentada na cadeira como permanecera todo tempo do almoço.
_Melhor não falar nada. Deixo para ele puxar o assunto. A língua até coçou para falar lhe umas poucas e boas. Mas é ele que tem que puxar assunto. Miserável.
Marli deixou-se ficar mais cinco minutos sentada. Levantou-se já recolhendo os dois pratos esmaltados com cuidado para não descasca-los mais ainda. Guardou as panelas dentro do forno simples do fogão branco e lavou as conchas, os garfos e os pratos na pia próxima ao velho fogão onde acabou de guardar as panelas.

_Que bom que seria a vida sem Nivaldo. Pode falar em voz sussurrante.

LEIA A SEGUIR:
CAPÍTULO II

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